quinta-feira, 12 de julho de 2007

Convocação

CONVOCAÇÃO

Manoel Canuto

O telefone tocou. O presbítero atende. Uma voz amiga lhe fala. Era uma consulta por telefone. Um irmão compartilha de sua luta interior sobre se deveria aceitar concorrer a determinado ofício eclesiástico. O presbítero fala por mais ou menos dez minutos e de forma concisa expõe aquilo que enche seu coração: Necessidade de reforma hoje.
Calvino escreveu um livro com este título. De uma forma muito estreita e rasa podemos entender hoje a ansiedade vivida por João Calvino em sua época. No último Simpósio Reformado Os Puritanos um de seus preletores, Dr. Richard Bacon, disse: “Queremos ver uma reforma acontecer na Igreja. Não importa quão reformada ela esteja agora, o que queremos é que seja mais reformada. Há sempre lugar para melhorar”. Na sua resposta ao irmão no telefone o presbítero fala do privilégio de se ser um líder na igreja de Cristo, mas também da alta responsabilidade que envolve esta posição. “Ser hoje apenas mais um líder de igreja não fará diferença”, falou o presbítero. O importante no capítulo 3 da primeira epístola de Paulo a Timóteo, onde estão inseridas as qualificações do ofício eclesiástico, vemos as palavras iniciais: “Fiel é a palavra: se alguém aspira ao episcopado, excelente obra almeja”, ou “deseja uma obra nobre”. Aqui não existe um elogio àquele que aspira um ofício. O que é “excelente” ou “nobre”, no texto, não se refere ao esforço daquele que aspira ser um oficial da igreja, mas sim ao próprio ofício. No contexto em que foi escrita esta carta, ser um líder, um oficial da igreja, significava sacrifício. Os falsos mestres já minavam a verdade e um presbítero teria de ser alguém valoroso, desprendido, corajoso, que se dispunha a sacrificar seus interesses, sua segurança pessoal, seu descanso físico para abraçar a tarefa “nobre” de apascentar a igreja de Cristo, a qual Ele comprou com seu próprio sangue (At 20:28). Um presbítero deve ser um homem piedoso, mas intrépido na supervisão das ovelhas, na defesa da fé e no exemplo de vida cristã. Deve ter em mente a pureza da Igreja e o zelo pela casa de Deus, o corpo de Cristo.
Quando vemos este “nobre” ofício instituído por Cristo para Sua igreja, nos vem logo a mente o slogan reformado: “Reformado, sempre reformando”. As palavras do ancião ao telefone tiveram esta direção. Se hoje a igreja possa por crise e não vemos se levantar reformadores, duas coisas são evidentes:

(1) Estamos como os líderes da época de Malaquias a quem Deus pergunta: “Se eu sou pai, onde está a minha honra? E, se eu sou senhor, onde está o respeito para comigo? _ diz o SENHOR dos Exércitos a vós outros, ó sacerdotes que desprezais o meu nome”. Eles respondem: “Em que desprezamos nós o teu nome?” (Ml 1:6). Estavam sofrendo de presbitismo ou presbiopia. Isto é, estão sofrendo de uma deficiência da visão decorrente da perda da elasticidade do cristalino que impede a pessoa de ver com nitidez aquilo que está próximo. É também chamada de “vista cansada”. A origem da palavra vem do grego presbyteroi, ancião, presbítero. É uma deficiência dos idosos. Aqueles líderes do passado e muitos de hoje estão com “vista cansada”, não enxergam o que está perto, não vêem sua omissão e erros cometidos; não vêem que estão permitindo que lobos vorazes ataquem o rebanho de Deus, não enxergam as fraquezas da igreja de hoje, o secularismo que sorrateiramente destrói os fundamentos da Igreja.

(2) A própria ausência de reformadores em nossos dias é uma evidência do declínio espiritual da igreja.

Muitos que vêem o declínio na igreja dizem que não vão deixar sua igreja. Isso é correto e incentivamos esta atitude, pois não devemos ter espírito cismático. Mas o problema é que a acomodação os domina. Não saem da igreja, mas não lutam para que a doença que a contamina seja curada. Outros procuram lutar contra uma igreja que está em crise, mas com armas carnais. Estas pessoas parecem zelosas e chamam sua igreja de mãe: “Não vamos abandonar nossa mãe”. Mas uma igreja em declínio espiritual não deve ser tratada como uma mãe e sim como um médico ruim que dá veneno aos seus pacientes na esperança de que eles fiquem curados.
Hoje um presbítero eleito deve ser, como bom Reformado, um reformador por natureza. Se isso não acontece, ele sofre de presbitismo. Não vê a crise eclesiástica, teológica, litúrgica, confessional, ministerial que vivemos. Antes, como reformador deve não só vê a necessidade de reforma e buscá-la com zelo, mas estar disposto a ser considerado absolutista, desconfiado, perturbador, divisionista, radical. Tem de ser paciente e não tolerante. O tolerante não tem perspectivas, suporta o status quo sem nada esperar como mudança, mas o paciente age esperando os resultados no tempo de Deus. Tudo sofre, tudo espera, tudo suporta, tudo crê.
“Concorra ao oficialato, mas seja um reformador”, finalizou o presbítero ao telefone.

“Atendei por vós e por todo o rebanho sobre o qual o Espírito Santo vos constituiu bispos, para pastoreardes a igreja de Deus, a qual ele comprou com o seu próprio sangue” (At 20:28).
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Extraído da revista OS PURITANOS – Ano XIV : Nº IV : 2006

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